Sei esperar mas se espero muito então desespero. Sei ir, sei entrar no comboio mais cheio, sei dar a vez, sei falar baixo mas falo alto quando quero. Sei viajar, sei fechar gavetas e deitar a chave fora, sei abrir portas, sei escolher e sei quando não é a melhor escolha. Sei errar, sei desculpar, sei começar do 1 ou do 2 porque do 0 nunca tentei e não acho que seja possível porque as marcas do passado ficam sempre.
Não sei esquecer, deixar tudo para trás e não me lembrar das pessoas. Não sei e não quero saber. O que deixei para trás muitas vezes ainda consigo rever, umas coisas em memória e outras nas ruas do Porto com os meninos e as meninas de sempre. Não me esqueci de quem me fez mal e não me esqueci a quem é que eu fiz mal. Não disse tudo, não chorei tudo, não gritei tudo, não sorri tudo, não agradeci por tudo, não me desculpei. Fiz aquilo para que tive tempo.
Chateei-me, virei a cara, escrevi uma mensagem de carinho a meio da noite, sorri e fiz sorrir. Dei um passo em frente para depois dar dois passos para trás. Disse um ou outro “gosto muito de ti” que não devia ter dito e não aproveitei para o dizer pessoalmente a quem mais falta me tem feito (que saudades!), talvez um dia o faça.
Não tenho ouvido a voz de quem tive no passado, não tenho ligado nem me têm ligado a mim, não temos tido muito contacto mas vamos falando uma vez ou outra. Têm-me feito falta.
Estive anos no mesmo lugar, mudei e foi uma lufada de ar fresco. Passei por situações difíceis e também as criei. Estive nos lugares que estive com estas e aquelas pessoas. Hoje ando pelos lugares que ando com estas e aquelas pessoas e o comboio espera sempre por nós. Corremos aqui e ali e não faz mal. São situações. Estas e outras de outros tempos. Tempos bem passados.
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